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Albino Maria Faleceu.

Tenho 38 anos. Quando terminei o curso e iniciei o meu percurso profissional já o Professor Albino Maria, era Director do INATEL. Foi nesse cargo que o conheci pessoalmente pela primeira vez. Fiquei impressionado. A consideração e o tempo que dispensou às propostas que um “maçarico” lhe apresentava foram, desde logo, reveladoras de uma postura singular. Apontando aspectos positivos no que lhe apresentava e sugerindo correcções e melhorias. Sempre.

E não se pense que me dispensou aquele tempo porque não tinha mais que fazer. Nessa altura estava o INATEL na sua pujança máxima em termos desportivos. Para além dos campeonatos regulares em várias modalidades, tinha um Programa de Desporto Aventura inovador, vastíssimo e de âmbito nacional. Programa esse que, na minha modesta opinião, abriu o mercado da actual animação turística em Portugal, mais que não seja, porque por lá passaram muitos dos que agora lideram empresas do sector, porque despertou hábitos de consumo e participação, e porque antecipou a instalação de algumas infra-estruturas. Outro projecto paradigmático que também contou com a intervenção de Albino Maria foi a “Carta do Lazer das Aldeias Históricas”. Outro marco fundamental de uma determinada época marcante da intervenção do INATEL onde se revela a intervenção do Professor Albino Maria.

Passou depois pelo Complexo Desportivo do Jamor, como Director Geral, onde foi responsável pela criação das condições de base necessárias a qualquer processo de desenvolvimento futuro, intervindo na regeneração de toda a infraestrutura física, humana e financeira.E foi aqui que nos voltámos a encontrar.

Era eu Assistente da Escola Superior de Desporto de Rio Maior quando fui presenteado com a oportunidade de desenvolver uma unidade curricular em conjunto com o Professor Albino Maria. A unidade curricular era Trabalho de Projecto e era muito exigente, quer para os alunos, quer para os docentes, uma vez que incluía muitos elementos de avaliação ao longo do ano lectivo. E o Professor Albino Maria, Director Geral do Complexo Desportivo do Jamor, esteve sempre lá. Com um desempenho notável, sempre disponível para mim e para os alunos. Sempre preparado e sempre pontual no cumprimento dos seus compromissos académicos. Sempre uma referência.

Penso que foi por esta altura que o Professor Albino Maria, alto quadro dirigente da administração pública central e local há já vários anos, com formação inicial em dois domínios (em educação física e penso que em reabilitação motora), e com um mestrado em gestão do desporto, realizado na Faculdade de Motricidade Humana onde também já colaborava como docente, foi por esta altura, dizia eu, que o Professor Albino Maria decidiu e se lançou decididamente na realização de um doutoramento.

E lá ia ele, de carro, em conjunto com os restantes colegas da ESDRM, para Lérida, em Espanha, realizar a parte curricular do doutoramento. Era incansável e possuidor de uma curiosidade ímpar e permanente: “Ó Diogo encontrei 20 artigos espectaculares!!! Tens de ler. Já os inseri aqui no EndNote e fiz lá a minha ficha de leitura. Já tenho um CD com mais de 500 artigos. Depois dou-te”. E o Professor Albino Maria dizia isto com um brilho nos olhos, com uma jovialidade, que chega a ser raro de ver em gente da minha idade e a iniciar-se na vida académica ou profissional.

Entretanto regressou a Rio Maior. E digo regressou sem ter feito referência anteriormente à sua passagem pela Câmara Municipal de Rio Maior, porque não sei bem quando e onde começou, apenas porque começou muito antes de eu ter aparecido nesta história… Mas o que sei é que a sua intervenção está bem patente no que hoje existe em termos de desporto no município de Rio Maior.

E, quando se pensava que o Professor Albino Maria já não podia surpreender mais, eis que surge como um dos principais autores de todo o quadro normativo e técnico que suportam o que hoje é a actividade física e desportiva no âmbito das actividades de enriquecimento curricular do primeiro e segundo ciclos do ensino básico. Uma iniciativa com um impacto extremamente significativo.

Eu, enquanto docente, peço frequentemente aos meus alunos que realizem os seus trabalhos com base em recolha de informação no terreno, privilegiando as entrevistas e a recolha directa de documentação. Os alunos, por seu turno, pelo menos os mais interessados, procuram corresponder e, frequentemente, recorrem aos serviços de desporto da Câmara Municipal de Desporto de Rio Maior. E todos os dias me surpreendo quando me apercebo do tempo e da atenção que o Professor Albino Maria colocava ao dispor destes alunos, no fundo destes futuros “maçaricos”, tal como eu era, há pouco mais de 10 anos atrás…

Foi com um espírito intocável, sempre curioso e incansável, com uma força interior enorme, cheio de vontade de viver, de aprender e de partilhar sempre e para sempre, que o Professor Albino Maria conquistou cada dia e nos conquistou a nós, que tivemos o privilégio de privar com ele.

Sempre até ao dia de hoje…

Albino, serás para sempre um exemplo e uma fonte de inspiração para mim e para todos os que contigo conviveram. Nunca te vamos esquecer.

Obrigado, meu amigo, e até sempre!

Deixo aqui uma entrevista que o Albino deu ao jornal “O Mirante”, onde se pode muitas das suas qualidades e que é como todos o queremos recordar para sempre.

8 Nov 2006, 11:19h
Albino Maria, especialista em marketing e gestão do desporto, diz que viver dos subsídios é um erro

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Clubes têm de se reinventar

Licenciado em educação física, mestre em gestão desportiva e especialista em marketing do desporto, Albino Maria foi um dos autores da vertente desportiva do programa de enriquecimento curricular adoptado pelo Ministério da Educação. Uma voz respeitada no sector que considera que o aumento da prática desportiva tem de ser uma prioridade do país. Mesmo sendo preciso mudar quase tudo.

O MIRANTE: A taxa de prática desportiva na nossa região, e em todo o país, é muito baixa. O que se pode fazer para a aumentar?

Há duas dimensões. Uma é a vontade política. Os decisores políticos têm de ter consciência da importância da prática desportiva na qualidade de vida das populações. Depois tem de haver uma estrutura técnica com competências para implementar os projectos. Basear as políticas locais ao nível da subsidiação é um erro crasso que já não se justifica. As autarquias têm de ser os motores do desenvolvimento desportivo. Não podem substituir as colectividades, à volta das quais devem andar todas as actividades, mas há áreas em que devem marcar posição.

O MIRANTE: Por exemplo?

Em Rio Maior fizemos um estudo que baseou o desenvolvimento do plano estratégico do desporto, onde detectámos que a taxa de participação desportiva do concelho era de cerca de 22 por cento, um ponto abaixo da média nacional. Isto incomodou-nos. A nossa prática desportiva não pode ser só referenciada ao número de equipas que fazem desporto federado, tem de ser pensada relativamente ao número de cidadãos que pratica desporto informal.

O MIRANTE: E qual é a melhor estratégia para implementar essa prática desportiva?

Depois desse estudo implementámos um projecto a que chamámos “Mais desporto – mais saúde”. Esse projecto levou a que, pelo menos duas vezes por semana, as populações das aldeias tenham oferta de actividades desportivas. Como não havia oferta nesse sector, a câmara teve de a preencher. Em 2007 vamos fazer novo estudo para verificar a taxa, mas tenho a certeza que deve situar-se entre os 35 e os 37 por cento.

O MIRANTE: Os benefícios desta aposta reflectem-se a outros níveis, nomeadamente na qualidade de vida…

Há estudos que comprovam que uma população activa tem menor taxa de absentismo ao trabalho, maior taxa de rendimento e menores custos com despesas de saúde. Um cientista americano fez um estudo em que acompanhou a mudança de comportamento de pessoas que eram inactivas e que passaram a praticar desporto. Concluiu que por cada dólar investido na prática desportiva da população, a economia obtém ganhos de três dólares.

O MIRANTE: Onde se inserem aqui os clubes que são os grandes sorvedouros dos subsídios das autarquias?

O paradigma que deu origem aos nossos clubes que jogam futebol nos campeonatos distritais e nacionais não tem enquadramento nos dias de hoje. Esses clubes têm de se reinventar. Há aqui um anacronismo grande. Os cidadãos que têm melhores condições para a prática desportiva, com relvados, gabinete médico, massagens, toda uma estrutura organizativa, não pagam para praticar desporto. Ao contrário do cidadão comum que paga e não tem essas condições. Isto apesar de ser correcto e justo que o cidadão assuma uma parte dos custos da prática desportiva.

O MIRANTE: E qual é o futuro desses clubes?

Têm de se reinventar. Há 30 anos lembro-me que quando o União de Santarém jogava com o Peniche havia excursões e tinha um enorme impacto local. Hoje isso já não acontece.

O MIRANTE: Mas é difícil dar a volta a essa situação quando são as autarquias que alimentam esse vício…

É um ciclo vicioso que tem de se quebrar. As autarquias têm de investir é na qualidade de vida das populações e na prática desportiva de base. É óbvio que não nos podemos desligar de alguma importância que o modelo de atletas de alta competição pode transpor para a motivação de jovens para a prática desportiva. Mas isso não justifica tudo. É justo que as autarquias apoiem os clubes que fazem formação, mas apenas nesse esforço.

O MIRANTE: E como fazer isso quando os próprios clubes da primeira liga são subsidiados pelo Estado?

Isso não faz sentido. Sou contra isso. As mais valias que o Estado dá a esses clubes têm de ter contrapartidas ao nível dos impostos.

O MIRANTE: Tentou implementar esse modelo quando foi presidente do União de Santarém?

Tive muitas dificuldades. Uma vez no balneário, perante a iminência de uma greve, disse aos jogadores que dali a uns anos, em vez de receberem dinheiro, tinham de pagar para praticar desporto porque mais ninguém tinha as condições que eles tinham.

O MIRANTE: Como vê apoios como aquele que a Câmara de Santarém deu ao Núcleo de Basket de Alta Competição de Santarém?

Não faz sentido! Uma equipa profissional ou é auto-suficiente ou não tem razão de ser.

O MIRANTE: O que é que esse tipo de clubes tem de fazer para sobreviver?

Devem olhar para os jogadores que têm nos escalões de formação e daqui a cinco anos cem por cento da equipa sénior vai ser baseada nos jogadores da formação.

Mais clubes e mais pequenos

O MIRANTE: Já o ouvimos defender que os clubes não precisam de mais sócios mas de mais praticantes. Mantém essa opinião?

Claro. Nós temos um rácio de clubes muito baixo por número de habitantes quando comparado com outros países. Nós temos uma colectividade por cada 1.650 habitantes. Na Suécia existe um rácio de uma colectividade por cada 260 habitantes. Isto que dizer que lá há muitos mais clubes. Não terão grande número de sócios mas dão resposta às necessidades dos associados. Se é um clube de caça, todos caçam, se é um clube de natação, todos nadam.

O MIRANTE: O nosso país precisa de mais clubes?

Mais clubes e clubes especializados. De hóquei, de rugby, de ténis, de ginástica e por aí adiante. O paradigma do clube que tem uma base de dois ou três mil sócios para apoiar uma equipa ao fim de semana não faz sentido. A equipa pode existir à mesma mas o clube tem de encontrar soluções para a prática desportiva dos seus sócios.

O MIRANTE: O paradigma do clube eclético tem os dias contados?

Os custos de enquadramento de equipas a esse nível são incomportáveis. Ou os praticantes suportam esses custos ou há uma indústria que se auto-sustenta através da publicidade e das receitas de bilheteira. Ao longo dos anos o que tem vindo a acontecer é cada ano que passa esses clubes têm maiores dificuldades… mas não mudam.

Jorge Guedes

João Calhaz

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6 thoughts on “Albino Maria Faleceu.

  1. Alice Matos diz:

    Foi com muita tristeza que recebi esta notícia… Era e será sempre um grande Homem, um grande Professor, um grande Amigo… Tive o privilégio de conviver com Professor “Bino”, muito do que sou hoje a ele o devo… Será sempre para mim uma grande fonte de inspiração, pelo qual tenho uma profunda admiração.
    Quem teve a sorte de conviver com ele sabe que estará sempre presente…

    Até Sempre Professor…

    Alice Matos

  2. Sérgio Nascimento diz:

    O Carisma de um Líder

    Desde o momento que recebi a notícia do falecimento do Professor Albino Maria, não consigo parar de interiorizar o que este homem representou para mim. Mais assombroso fico, quando concluo as poucas vezes que dialogámos e trocámos ideias.

    Mas a marca de uma pessoa não é a quantidade de vezes que interfere na vida de outrem, mas sim a particularidade que possui em transformar um momento…no momento! E quando essas “curtas-metragens” ramificam-se por várias pessoas em ocasiões distintas, isso representa que o dom da sua individualidade irá perdurar na nossa memória.

    Recordo-me…O trato pessoal, o olhar profundo na descodificação de ideias, a tranquilidade cooperativa nas aulas e a humildade constante e contagiante para com quem lidava. Até nos últimos momentos da sua “passagem”, contam-me que, a sua autenticidade pura ofusca os mais temerosos pessimistas. Aluno ou ex-aluno, professor ou administrativo, político ou associativo, desportista ou inerte, sinto que a sua voz era percebida e descodificada por todos.

    Pode ser que no desenvolvimento sustentável do desporto, as suas obras passem a proféticas. Basta seguirmos as linhas neutrais do pedagogo.

    Hoje, comparo-o à minha mãe. Na luta no combate à doença, ambos afirmaram que a vida é muito mais do que ser vivida! A Vida são…

    Houve um rei que pediu, “dêem-me apenas inteligência para saber decidir”. Assim vejo o Professor Albino Maria.

    Afinal, todos os homens morrem…até os imortais visionários enérgicos!

  3. scalabis diz:

    Foi meu Professor na Escola Sá da Bandeira em Santarém. Dinamizador do Clube de Montanhismo que tantas horas bem passadas nos deu.
    Que descanse em paz e o meu lamento!

  4. Daniel Oliveira diz:

    Apenas gostaria de dizer que foi um professor que para além de me fazer sonhar fez com que eu acreditasse que seria possível realizar os meus sonhos.
    Com uma jovialidade unica, incansável, nobre e amigo, faziam de si uma pessoa muito à frente da vanguarda da gestão desportiva.
    Obrigado Professor Albino por fazer de mim muito do profissional e da pessoa que sou hoje.

    A todos os familiares, amigos e colegas o meu sentimento de pesar.

    Até sempre Professor Albino…

    Daniel Oliveira

  5. Nuno Santos diz:

    Receber uma noticia destas num dia chuvoso e triste reconheço que hoje 20 de Outubro será um dia recordado pela perda de um grande homem, que durante muitos anos marcou o seu percurso como homem, agente desportivo impulsionador, amigo e professor de uma forma intensa e contagiante. Apesar de não ter partilhado grandes momentos e vivencias com o Prof. Albino Maria, o pouco conhecimento que recolhi deste grande homem, fruto de uma ligação docente-aluno, foi a melhor possivel, ao ponto de o classificar como uma das pessoas mais perfeitas a nível profissional e humano, que alguma vez conheci.

    É com grande mágoa que me despeço de si Professor Albino…UM ABRAÇO AMIGO E ATÉ UM DIA DESTE…

    Nuno Santos

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